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Antonio Candido: Alienação, desonestidade e vaidade. Um retrato da intelectualidade brasileira

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Aos 92 anos, as minhas preocupações são:

se vai ter bolo de fubá no café da manhã,

se o suco de laranja tem gelo ou não (eu não posso com gelo)

e o que vai ter para jantar. Só isso.

(Antonio Candido. Idade da Razão. Coluna de Monica Bergamo. Folha de São Paulo. 22 Mar. 2010 )

 

Com a morte recente de Antonio Candido, na sexta-feira passada, dia 12 de maio de 2017, diversos órgãos da imprensa noticiaram o acontecimento, enfatizando a carreira do falecido, como professor, crítico literário e sociólogo, e sua orientação ideológica marxista.

Este, então, é o momento mais oportuno para se fazer uma análise sóbria de sua obra e um balanço de sua carreira. Pensar quais foram suas reais contribuições para os estudos literários e para o Brasil, e não fazer meros elogios sem conhecer a obra do autor ou, para os que conhecem, repetir as falácias ideológicas sem menor crivo do bom senso e até mesmo da crítica também; refletir sobre o impacto de seus escritos e orientações acadêmicas, que mudaram o rumo da crítica literária no país.

Se você acha que este artigo será mera rasgação de seda ao recém-falecido crítico, está enganado! Mostrarei os defeitos da obra e do homem, que costumam a ser endeusado nos círculos acadêmicos e esquerdistas.

O crítico, nascido no Rio de Janeiro, mas que viveu maior parte de sua vida em São Paulo, apresentou somente trabalhos notáveis no início de sua carreira. Seu sucesso e repercussão de sua obra se devem mais ao conchavo de elogio e ajuda mútuos de esquerdistas do que ao real valor que aquela tem, pois, após produzir uma obra sólida e digna de elogios, garantindo seu lugar nas patotas universitárias e políticas, sendo comedido ao propagar sua ideologia em seus escritos. Quando finalmente conseguiu alcançar seu lugar ao sol, descambou em (auto)elogio, propaganda ideológica ou repetição de seu trabalho anterior (únicos escritos em que conseguiu manter qualidade), Explicarei detalhadamente esta minha análise a seguir.

As qualidades do crítico

Os primeiros escritos de Antonio Candido foram breves, porém profundas e perspicazes, análises literárias escritas para Folha da Manhã (antiga Folha de São Paulo). Nestas análises, Candido faz leituras notáveis de obras da literatura brasileira da época, primeira metade década de 1940, as quais podem ser lidas na obra Brigada Ligeira (São Paulo: Livraria Martins Editora, 1945; há várias reedições mais recentes, lembrando que a Editora Ouro sobre Azul é detentora atual dos direitos e responsável pelas reedições da obra de Candido nos dias de hoje), livro que consiste na compilação de parte desses escritos, entre os quais destaco Estratégia, uma leitura do romance O Amanuense Belmiro (um dos melhores romances de nosso literatura, lamentavelmente esquecido pelos críticos e professores dos últimos, bem como seu autor), de Cyro dos Anjos, com base na noção de escritor estrategista, em contrapartida com a de escritor tático, e o problema da lembrança/ memória na construção da narrativa. Ainda sobre Brigada Ligeira, há uma reportagem de Nelson de Sá, que pode ser lida aqui, cujo colunista oferece informações da época em que Candido elaborou esse livro na redação do jornal, da mesma maneira em que destaca seu posicionamento original e distinto, porém muito comedido, em relação ao grande crítico da época, Álvaro Lins.

Deste período também é outra obra do crítico que merece elogios, trata-se da tese de livre-docência, O método crítico de Sílvio Romero, publicada originalmente em 1945 numa edição do autor. A publicação apresenta uma leitura séria das obras do crítico sergipano do século XIX, Sílvio Romero, tanto suas obras críticas, como de outras áreas (sociológicas, antropológicas, filosóficas e políticas), inferindo seu método a partir delas, descrevendo-o e julgando-o. O ponto negativo aqui é que Candido já começa a desenvolver aquele pedantismo e trejeitos necessários para ser aceito no meio acadêmico.

O ápice do talento de crítico literário de Antonio Candido é alcançado nas duas próximas publicações, a saber: Ficção e confissão (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956) e Formação da literatura brasileira (São Paulo: Livraria Martins Editora, 1959). Na primeira, o crítico elabora quatro ensaios sobre a obra de Graciliano Ramos com uma argúcia sem igual para perceber nuances da vida e da obra do escritor alagoano, sendo a obra elogiada pelo próprio Graciliano. Interessante é que anos depois, Candido mostra seu caráter ao mudar radicalmente de posição em relação a Graciliano, em seu ensaio Os bichos do subterrâneo, de Tese e Antítese (São Paulo: Companhia Editora nacional, 1964), principalmente pelo fato de o autor alagoano ter revelado a realidade de certas personalidades comunistas brasileiras a época em que esteve preso, personalidades que eram mitificadas como heróis, e Graciliano em suas Memórias do Cárcere tirou o véu destes (sobre o assunto ver o ótimo capítulo de Martim Vasques da Cunha, A invasão do abismo (Nelson Rodrigues e Antonio Candido), em A Poeira da Glória. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 362-376. Um dos únicos críticos das últimas décadas que teve colhões para apontar defeitos de Antonio Candido). A segunda é considerada sua magnum opus e consiste numa interpretação da história literária brasileira, em que o crítico chega a traçar um esboço de um método próprio, que envolve aspectos da sociologia, bem como da primazia da obra literária. Contudo, Candido não chega a deixar claro este seu método, voltando a ele somente décadas depois, quando já estava aposentado e com sua carreira de crítico quase terminada, fato apontado e estudado também por Martim Vasques da Cunha (op. cit., p. 345-346). Para ser justo, a Formação da literatura brasileira tem mais méritos que deméritos, além de informações históricas valiosas, frutos de pesquisa histórica consistente, há leituras de certos autores da literatura brasileira que são esclarecedoras, como: No limiar do novo estilo: Cláudio Manuel da Costa, Naturalidade e individualismo de Gonzaga, O disfarce épico de Basílio da Gama, Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban, Manuel Antônio de Almeida: o romance em moto-contínuo, e Os três Alencares, que permanecem válidas e possuem valor crítico até os nossos dias. Ademais, Candido com sua tese de livre-docência, começou a lecionar e orientar trabalhos de pós-graduação sobre literatura brasileiro, tornando-se o principal formador da geração vindoura de críticos e, assim, definindo os rumos que a crítica literária tomaria no Brasil.

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Vale lembrar que o Antonio Candido que mostrou sua verdadeira face esquerdista em sua tese de doutorado, Os parceiros do Rio Bonito, elaborada no final da década de 1940 e início de 1950, veio à luz em formato de livro somente uma década depois, em 1964, pela Livraria José Olympio Editora.

E aqui se encerra sua fase de escritos que são dignos de louvor, com a exceção do citado acima, mesmo porque foi publicado posteriormente. Na fase seguinte, Candido mostra sua verdadeira face, a alienação, a desonestidade e a vaidade que são traços comuns da intelectualidade brasileira atual.

A obra desonesta e vaidosa

Antes de falar de sua verdadeira face, a do crítico esquerdista, que disfarçava ou se continha, que pretendia reformar a sociedade, que idolatrava ditadores comunistas, que pregava a revolução comunista e a guerrilha, que foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), apontarei alguns ensaios que ainda se salvam nas publicações desta época. Estes ensaios somente apresentam qualidade, pois tratam da retomada, às vezes quase repetição, das leituras que Candido fez em Formação da literatura brasileira.

Em Literatura e sociedade (1965), o crítico expande a análise conduzida em sua magnum opus, que se limitava aos séculos XVIII e XIX,  com os ensaios Letras e idéias no período colonial e Literatura e cultura de 1900 e 1945. Já seu Vários escritos (1970) apresenta um bom ensaio com um panorama sobre a crítica a respeito de Machado de Assis, em Esquema de Machado de Assis, e retoma seu estudo de Basílio da Gama, autor que Candido aprecia muito, ao lado de Álvares de Azevedo, em A dois séculos d’O Uraguai. Destaca-se também seu ensaio Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade, em que tenta esboçar seu convívio com o poeta modernista e a personalidade deste, como uma espécie de homenagem, mas este ensaio serve mais como fornecimento de munição contra Oswald do que homenagem. Na sala de aula: caderno de análise literária (1985) é um bom livro devido ao seu valor didático, que consiste em breves análises de obras da literatura brasileira com o intuito de fornecer material a professores de escolas. Finalmente, A educação pela noite e outros ensaios (1987) salva-se somente pelo ensaio homônimo, que trata de Álvares de Azevedo, o segundo autor na lista de preferidos de Candido.

Das obras citadas, os demais ensaios são mera propaganda ideológica, em que o autor trabalha com conceitos marxistas de proletário e burguês, luta de classes, entre outros, aplicando-os à análise literária, o que é pura desonestidade intelectual, ou faz elogios a si mesmo ou a outros colegas/ instituições, retratando a vaidade existente no mundo acadêmico, o que pode ser visto também nas demais obras deste período, como O observador literário (1959), Tese e antítese (1964), Teresina etc. (1980), Recortes (1993) e O discurso e a cidade (1993).

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Ademais, para piorar a situação, Candido atinge um status altíssimo devido ao seu cargo na Universidade de São Paulo (USP) e outras, seus envolvimentos políticos com partidos de esquerda e suas publicações mencionadas aqui. Com isso, ele passa a ditar os rumos que a literatura e a crítica tomariam no Brasil (ver Martim Vasques da Cunha, op. cit., p. 382). Por isso, nossas letras estão na calamidade em que se encontram na atualidade. É de se pensar quais outros possíveis rumos teriam tomado, se outros críticos as tivessem guiado? Certamente, um bem melhor do que a propaganda ideológica marxista de seus ex-alunos, de um Roberto Schwartz, ou da desonestidade de um João Luiz Lafetá, ou da falta de talento de um Davi Arrigucci Jr. (este também muito elogiado), apenas para mencionar alguns (ver) Martim Vasques da Cunha, op. cit., p. 383). Sendo que estes ex-alunos nem ao menos ofereceram frutos para a próxima geração, já que a crítica literária brasileira está moribunda, puro puxa-saquismo universitário e editorial, sobrando aos críticos fora da universidade a tentativa de mudar este cenário, como vem fazendo nosso grande crítico atual, Rodrigo Gurgel, mas tentativas árduas em que pesa a orientação política, a opinião da patota e o status, o que faz com que uma safra de possíveis novos e bons críticos fiquem no anonimato e/ou desistem de seus trabalhos, devido a táticas de coerção política e financeira ou até mesmo a espiral do silêncio, o que torna a publicação e divulgação de certos trabalhos muito difíceis.

Tivemos também ótimos críticos que foram relegados a segundo plano, como sendo de menor importância, ou até mesmo auto exilados por não ter espaço no Brasil. Dentre vários, cito somente o exemplo de dois: Álvaro Lins, no primeiro caso, e Wilson Martins, no segundo, que acabou sua carreira lecionando nos Estados Unidos e ao falecer mal foi lembrado pela intelectualidade brasileira, sendo um crítico com uma obra única no Brasil, obras do calão de História da Inteligência Brasileira (7 vol.) e A Crítica Literária no Brasil (2 vol.). Tudo isso porque esses e outros críticos não partilhavam da mentalidade coletivista e da ideologia marxista, ambos pré-requisitos obrigatórios para se fazer parte da intelectualidade brasileira.

O que seria da crítica literária brasileira se a tivéssemos deixado nas mãos de Álvaro Lins? Ou de Wilson Martins? Não sei como estaria agora, mas tenho certeza que estaria bem melhor do que está.

Retornando a Candido, alçado ao status de guru das Letras Brasileiras, o crítico recai nas mentiras esquerdistas, propaga-as à intelectualidade, aos seus alunos e ao público, e fica embriagado pela imagem do Antonio Candido formada pelos outros e por ele mesmo, o que passa também a divulgar em seus escritos.

Vaidade e mais alienação

Na década de 1990, quando se aposenta, o reformador social e fundador do PT, que se diz muito preocupado com o povo, isola-se em seu castelo, um apartamento muito luxuoso, sendo servido por empregada e com um salário mensal muito superior à média salarial do brasileiro comum. É uma pena que ele pregue sua ideologia esquerdista de preocupação aos pobres e fique somente na teoria, pois se quisesse ir para a prática poderia muito bem praticar a caridade, tendo todas as condições para isso. Mas sua caridade, porém, resumiu-se a doar sua ampla biblioteca, mais nada!

Tudo isso que afirmo aqui pode ser lido em diversas entrevistas que o crítico vem dando nos últimos anos, como a seguinte: “O socialismo é uma doutrina triunfante”, que pode ser lida aqui. Nela, Candido arremessa às alturas sua vaidade, que culmina com sua alienação, ao não se importar o que vem acontecendo com o resto do mundo (além de ser uma contradição para que sempre afirmou se preocupar com o povo e com a sociedade); mostra que ou é extremamente desonesto (e continua mentindo para seus leitores e ex-alunos) ou é muito burro (não conhecendo a realidade, nem tendo a leitura necessária para discutir a respeito de ciência e filosofia políticas, falando mal do capitalismo e bem do socialismo, defendendo Cuba etc.).

Somente essa entrevista, mencionada anteriormente, daria um artigo separado em que poderiam ser apontados linha por linha um grande número de erros e mentiras de Candido. Nessa hora eu me pergunto: como um sujeito desonesto e que não conhece o assunto que se propõe a falar é considerado um grande intelectual? Ou pior: como é considerado o maior crítico literário brasileiro (Se nem ao menos produziu tantas obras de crítica que são notáveis)?

Uma matéria da Folha de São Paulo, de Flávio Moura, intitulada Com a morte de Candido, clichê ‘fim de uma era’ faz todo sentido, que pode ser lida aqui, no fim de seu texto o colunista tenta defender Candido, colocando ao lado de Chico Buarque (não sei o porquê, ser comparado com o péssimo cantor e esquerdista da MPB não é elogio, mas sim ofensa!), fazendo um malabarismo argumentativo devido a sua participação na fundação do PT. Isso na verdade é uma vergonha, uma mancha na carreira de qualquer pessoa, estar associada de alguma forma a uma quadrilha de criminosos que destruíram seu próprio país e são responsáveis por milhares (talvez milhões) de assassinatos de maneira indireta, entre várias outras coisas imorais e ilegais. Isso não pode ser lavado da carreira de Antonio Candido, nem de outro intelectual ovacionado pela intelectualidade brasileira, Sérgio Buarque de Holanda.

Mas, mesmo assim, todos nós, seres humanos, erramos e pecamos no decorrer de nossas vidas. Aqui é possível separarmos o homem de sua obra, pois Candido (e Sérgio Buarque de Holanda também) produziu uma obra notável e edificadora para a cultura brasileira.

O que se faz necessário é o senso e proporções e de hierarquia, pois alçá-lo ao patamar de melhor crítico literário brasileiro já é demais! Deixemos isso para autores que fizeram um trabalho crítico de verdade, não preocupados com a ideologia e o próprio umbigo. E críticos de qualidade, nós tivemos bastante no decorrer de nossa história. É uma pena que a intelectualidade brasileira da atualidade, contaminada por ideologias de esquerda, só saibam propagar desonestidades e tem um comportamento alienado e vaidoso. Nisso, Candido não foi apenas um reflexo da intelectualidade brasileira, como foi um dos que ajudou a moldá-la.

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Sou católico e conservador. Doutor em Linguística. Professor de Ensino Médio e Superior nas diversas disciplinas da área de Letras. Atuo também como revisor, tradutor e crítico literário.