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Caos capixaba

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Conheci minha esposa pela internet, e um ano depois estava morando no Espírito Santo.

Gostei de Vitória, pois lembrava Niterói; e ao ver que era um lugar tranquilo, bom de se viver, não recusei me afastar 500 quilômetros da casa em que vivi a vida inteira, na divisa entre São Gonçalo e Niterói. Para trás, ficaram meus pais, muita gente, saudades e lembranças.

O outro lado da poça d’água” não era um lugar tão violento como é agora. Bastava “seguir o protocolo” que dava para sobreviver. Tanto que eu saía à uma hora da matina e atravessava a cidade para comer uma carne e tomar chopes no Steak House, em Icaraí. Se não inventasse de rodar pelo Centro para ver o comportamento das “criaturas da noite”, chegava às quatro em casa, sem arranhões ou problemas para sair do carro, abrir o portão complicado, guardar o carro, fechar o portão complicado e ir para o berço. Hoje, já não é possível fazer isso, fruto de vários governos péssimos, com políticas de segurança pública catastróficas. Aliás, nenhuma porção de terra passaria imune ao comando consecutivo de Brizola, Moreira Franco, Garotinho, Rosinha, Benedita e Cabral.

Como havia falado, o Espírito Santo era mais tranquilo. E ainda é. De tanta tranquilidade, cheguei a perder aqueles “olhos de águia” obrigatórios para quem quer sobreviver no estado do Rio.

Não é possível negar que a violência por aqui tenha aumentado (e muito!), mas ainda é localizada. Então, dos últimos anos pra cá, basta “seguir o protocolo” que não dá zebra.

Moro num bairro próximo à Universidade Federal, em que há furtos de bicicletas e de outros bens – e em menor escala, roubos. Há muitos jovens estudantes, bares e um posto policial, com a Polícia Militar fazendo rondas em viaturas e em bicicletas, além da guarda municipal, que também passa com frequência.

Pode-se dizer que a violência por aqui ainda é “administrável”.

Mas chegou o dia da greve disfarçada da Polícia Militar [1], em que barreiras formadas por parentes e amigos “impediam” os policiais de saírem dos quartéis.

Parentes PM

As condições de trabalho deles é realmente alarmante: salário defasado, equipamento precário, o HPM desativado… Isso desmotiva e afeta o bom desempenho dessa atividade, que é pautada pela tensão.

A greve é justa? Não sei. Mas certos serviços não podem ser totalmente interrompidos. Está insatisfeito? Procure outra atividade.

Um efetivo mínimo que estivesse nas ruas seguraria o ímpeto dos criminosos que resolveram aterrorizar a população e transformar o estado num cenário do filme “Loucademia de Polícia 2 – Primeira Missão”. Ora, a população paga para o Estado fingir que promove a segurança pública – a insatisfação do servidor não é culpa dela. O governador não cumpre o que negociou? Nas eleições, não vote nele e divulgue para os contribuintes.

Loucademia Caos

O que incentiva as pessoas a saírem de casa e a transformarem as ruas de todo o estado numa praça de guerra?

A mentalidade criminosa, mas não podemos negligenciar os anos de “investimento”, como a visão glamourizada da criminalidade, da vida marginal, do consumo de drogas que financia a compra de armamento pesado; as políticas públicas criadas para aprisionar a população e dar liberdade à marginalidade; a campanha pela extinção da Polícia Militar, e a centralização das polícias numa força nacional, sujeita ao poder central, nos moldes das ditaduras mais sanguinárias que já existiram; a doutrinação nas escolas e nas faculdades; o incentivo, a publicação e a veiculação de livros e de “arte” de baixa qualidade; a realização de debates que reforçam teses como a vitimização de uma sociedade de consumo que exclui; filmes, novelas, séries e seriados ideologizados. Há o discurso que enfatiza que os pobres produzem bens para as elites consumirem, e as elites esfregam em suas caras (as caras dos pobres) os bens que eles jamais poderão ter, mas que por “direito” deveriam ter acesso; e há também o discurso que destila o ódio entre brancos e negros/índios, héteros e LGBT, homens e feministas, cristãos e qualquer religião ou filosofia de vida.

O intuito é dividir a sociedade em blocos mais facilmente cooptáveis e influenciar e encorajar especialmente gente de baixa capacidade cognitiva e das camadas mais baixas da sociedade.

Lembro-me do falecido Zygmunt Bauman, o “sociólogo líquido”, dizendo extasiado que a baderna promovida na periferia de Londres em 2011, quando houve saques e destruição de propriedades públicas e privadas, estava prevista por ele em seus livros [2].

Vê-se que a ação é pensada, colocada no papel e depois realizada, para induzir as pessoas a adotarem tal comportamento, sem se importar com os estragos provocados. Tudo é feito em favor de uma ideologia covarde, mesquinha, e de várias faces.

Investe-se pesado na destruição da nossa cultura ocidental – e as pessoas vão se acostumando a isso, pois não há resistência ao trabalho bem articulado dos grupos globalistas. Pelo contrário, o Estado atua para idiotizar, infantilizar, tornar dependente de esmolas a população mais precisada, aquela mais facilmente manipulável para cumprir o plano de mergulhar a sociedade no caos.

As vítimas da sociedade são, na realidade, vítimas desses engenheiros sociais que acusam os outros de fazerem exatamente aquilo o que fazem.

Morto

Mas nada justifica os atos criminosos: os populares flagrados por cinegrafistas amadores são criminosos que saem de casa com o intuito de tirar vantagem dessa situação especial. E não são diferentes aqueles que, nas ruas, vendo uma vidraça quebrada, uma porta arrombada, seguem a manada, pegando o que podem, seja-lhes útil ou não.

É muito grave a falta de valores e o desconhecimento do que é certo ou errado. Muitos de nós fomos intensamente doutrinados por aqueles que lutam pela transformação da sociedade, e a partir daí acabamos praticando atos, dizendo coisas ou aderindo a teorias sem mesmo analisarmos o que significam, ou suas consequências.

O brasileiro não é ruim. É mal direcionado, é manipulado, é cobaia do maior laboratório “a céu aberto” das teorias de António Gramsci que já existiu.

Com os acontecimentos desenrolados no Espírito Santo a partir da greve dos policiais militares, quantas pessoas foram às redes sociais dar pareceres, fazer análises, dar palpites sobre a situação que, mal e parcamente, tinham notícias à distância?

Havia os que apontavam que é esse modelo falido de segurança pública que a esquerda luta com unhas e dentes para implantar no Brasil; enquanto outros diziam que o povo brasileiro é desonesto, que os “capixabas” estavam saqueando tudo etc. e tal.

Ora, eu e meus filhos ficamos trancados em casa. Pelo menos grande parte da família de minha esposa também. Ela teve que trabalhar, mas foi dispensada mais cedo. Fui levá-la e buscá-la com medo (e sempre alerta!), o mesmo medo que ela sentia.

Tenho conhecidos que não puderam abrir as portas de suas empresas, que não saíram de casa (como eu). A justiça suspendeu os prazos. Todos estavam temerosos, e enquanto isso eu lia que “os capixabas estão saqueando tudo”.

Vários trabalhadores tiveram dificuldades ao voltar para casa, porque o serviço de transporte público foi interrompido. Pessoas perderam seus bens porque tiveram que sair de casa, enquanto outras tiveram suas casas invadidas.

Só começou a existir certo alívio a partir do momento em que militares do Batalhão da 38ª Infantaria do Exército tomaram as ruas da Grande Vitória, embora as notícias do que estava acontecendo fossem raras.

WILT0944.JPG VITORIA ES ESPIRITO SANTO 06/02/2017 METROPOLE GREVE POLICIAS MILITARES / PARALISAÇÃO POLICIA MILITAR - Soldados do Exercito do 38 Batalhao de Infantaria fazem patrulhamento nas ruas de Vitoria durante a greve dos policiais militares. Ja foram assassinadas mais de 60 pessoas de sabado ate esta segunda-feira (6) . FOTO WILTON JUNIOR / ESTADAO

 

Soube de alguns assaltos e tiros (que não ouvi) no bairro em que resido, e fiquei com “animus necandi” quando assisti ao vídeo no qual um vagabundo andava de bicicleta pelo bairro, dizendo que todos deveriam ficar trancados dentro de suas casas.

A população conseguiu responder de alguma forma, mas covardemente desarmada pela política antidemocrática brasileira, não tinha mesmo como fazer algo significativo.

Dadalto 01

Muitas cenas que correram as redes sociais aconteceram em Cachoeiro de Itapemirim, uma cidade do interior cuja população, em 2010, era de cerca de 163 mil pessoas. Mas os analistas/palpiteiros assistem aos vídeos com 50, 100, 200 pessoas saqueando lojas e generalizam, afirmando que “o capixaba”, “o brasileiro” blá-blá-blá.

Houve um aumento absurdo de homicídios? Sim. Mas a grande maioria (senão todos) era de criminosos, mortos por criminosos de facções adversárias.

Não, nem todo mundo que vive no Espírito Santo é saqueador, é homicida, é criminoso; e nem todo brasileiro deixa de cometer crimes porque se sente intimidado pela polícia.

Quem escreve isso, considera-se um desses criminosos no armário, que praticam crimes se não são vigiados? E se acredita que é um criminoso, está medindo os outros por sua régua?

Sou um pai, marido, cunhado, genro, compadre, tio, padrinho, amigo e conhecido chato pra caramba, mas não estou casado nem sou pai de saqueadores.

Antes de sair palpitando sobre tudo, respeite quem está sofrendo uma violência e se encontra indefeso. Pense um pouco, e se não conseguir deixar de falar daquilo que desconhece, ao menos seja econômico.

#MENAS,GENTE.

 

NOTAS

[1] CARMO, Sidney Gonçalves do, LINHARES, Carolina, e HEITOR, Leonardo. Com PM em greve, ES tem aumento de violência e pede ajuda ao Exército. Folha de São Paulo, 06/02/2017. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1856179-com-pm-em-greve-es-tem-aumento-de-violencia-e-pede-ajuda-do-exercito.shtml. Acesso em 06/02/2017;

[2] DUARTE, Fernando. “Foi um motim de consumidores excluídos”, diz sociólogo Zygmunt Bauman. G1, 12/08/2011. Disponível em http://oglobo.globo.com/mundo/foi-um-motim-de-consumidores-excluidos-diz-sociologo-zygmunt-bauman-2690805. Acesso em 06/02/2017.

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Fernando César Borges Peixoto Advogado, pós-graduado em Direito Público e pós-graduado em Direito Civil e Processual Civil, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, saudosista.