Política

Por dentro da mentalidade do Trump: uma persona autoritária?

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“Podia dar um tiro a alguém no meio da 5.ª Avenida e não perdia um único voto, OK?” – Donald Trump num comício no Centro Sioux no Iowa.

As razões econômicas e políticas para a eleição de Donald J. Trump chegam a ser óbvias: o povo americano se cansou das políticas econômicas de Barack Obama e dos conflitos internacionais fomentados pelo seu governo. Mas, e quanto às razões menos óbvias por detrás do fenomenal evento que foi uma das eleições mais importantes e acirradas da história?

Princípios básicos: mais da metade da comunicação humana se dá de maneira não-verbal. Isso significa que a prioridade dada por Hillary Clinton para a boa oratória deveria ser secundária. Diferente dela, Donald Trump é um péssimo orador, mas é um exímio comunicador.

Recentemente, o neurocientista Ryan McGarry pôs os participantes de um dos seus experimentos para assistirem a 40 minutos de propaganda política e debates eleitorais referentes à última campanha norte-americana e constatou que Trump prende a atenção das pessoas por muito mais tempo do que a democrata Hillary por causa de sua comunicação objetiva.

Esse fenômeno se deve ao fato de que a eficácia da oratória depende de um valor que, segundo o filósofo e escritor britânico Roger Scruton, praticamente não é mais levado em consideração desde o advento da modernidade: a beleza. Os antigos gregos, por exemplo, cultuavam a palavra bem dita, mesmo que vazia, porque valorizavam a beleza, mas na modernidade líquida, descrita por Zygmunt Bauman, a beleza, que traz consigo uma ideia de eternidade, não cabe num mundo tão pragmático. A beleza não mais importa. A palavra não precisa ser bem falada, mas informar.

A lealdade dos apoiadores de Trump também pode ser explicada pelo culto às celebridades. Os anos como apresentador de O Aprendiz lhe renderam vantagens políticas no sentido de que o culto às celebridades se assemelha a uma obsessão das massas para como o seu objeto de desejo. Um exemplo disso, a nível individual, seria a chamada erotomania. Segundo a BBC, o médico James Maltby, da Universidade de Leicester, estudou as ligações entre as celebridades e pessoas com diferentes tipos de personalidades. Informações coletadas com 3 mil pessoas mostraram que apenas cerca de 1% demonstrou tendência obsessiva, mas dez por cento dos entrevistados se interessavam pelo dia-a-dia das celebridades, apresentavam tendências a neurose, tensão, mudança de temperamento e cerca de 14% disse que faria um esforço especial para saber as fofocas sobre seus ídolos, dividindo ainda as informações com pessoas de seus interesses.

Donald Trump, além de ser uma celebridade, é uma autoridade política, mas terá mesmo ele uma personalidade autoritária? Segundo Olga Curado, especialista em linguagem corporal (que treinou Lula e Dilma para suas campanhas eleitorais), seu constante dedo em riste expressa sentimento de superioridade, além de impor de forma enfática uma ordem a ser atacada, sendo o ataque, obviamente, liderado por ele.

Mas, é claro: isso não significa necessariamente que Trump seja dotado de uma personalidade autoritária, mas uma persona autoritária, a qual esconde mais do que aquilo que ele verbaliza. Dan McAdams, um dos psicólogos mais interessantes de nossa época, escreveu um artigo chamado “The Mind of Donald Trump”, no qual descreve este usando os traços de personalidade do Big Five (extroversão, neuroticismo, escrupulosidade, amabilidade e abertura para a experiência), caracterizando Trump como tendo muita extroversão, pouca amabilidade, e muito narcisimo (que não é um dos traços do Big Five). Em suma: o que se pode dizer acerca dele, até então, é que se trata de uma personalidade narcisista, mas não necessariamente autoritária.

E o que impede um narcisista de ser autoritário? Culpa! Segundo o psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski, a corrupção na política é um traço da psicopatia no poder. Nesse sentido, se tivéssemos de atribuir ausência de culpa a um dos dois últimos candidatos à casa branca, seria Hillary Clinton, visto que ela pode ser a política mais corrupta na história dos Estados Unidos.

Mas, por via das dúvidas, deixo com os leitores algo que pode facilitar a questão levantada pelo título: já ouviram falar no F-scale (escala de fascismo)? Trata-se de um teste psicológico criado em 1947 por Theodor W. Adorno com o objetivo de mensurar o nível de fascismo/autoritarismo na personalidade do indivíduo.

E aí? Quem você acha que consegue um F score maior no F-scale: Donald Trump ou Hillary Clinton? Aproveite para fazer o teste você também e comente o resultado abaixo! Se for do interesse, sugira outro nome da política para ter a sua caracterologia destrinchada.

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Marcelo Lyra

23 anos. Graduando em psicologia e estudante de psicanálise com um interesse aguçado pela ponerologia. Monarquista e liberal. Escritor nas horas vagas e filósofo quando possível.

Comments

  • Hannoy says:

    Jair Messias Bolsonaro

  • San Ramon says:

    San Ramon Análise fina, não sei se poderia acrescentar muita coisa. Fora o fato de Trump ser uma celebridade,, um comunicador experiente, um “não-político” em um momento de descrença na política, ainda tem o sucesso do seu jargão “Make American Great Again” que remete a um dos males do século que é o saudosismo. Trump capturou a decadência da América profunda, o medo generalizado da imigração e o sentimento de “estamos perdendo o controle das coisas” que o americano médio sente desde o 11/9. Acho que os jargões são muito importantes também nos tempos atuais, frases que possam viralizar em rede social como “Feel the bernie”, “Brexit”. Clinton não tinha nada disso, ela foi uma aposta conservadora demais contra os erros do passado e as novidades do presente. Trump é o que merecemos.

  • Jair Messias Bolsonaro ou Ciro Gomes.

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