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Fascismo é de esquerda

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Sim, o fascismo é de esquerda. A manchete acima não deveria despertar inquietação, mas como estamos no Brasil, a terra do absurdo onde tudo pode e acontece, esse texto (que tentarei ao máximo fazê-lo breve e inteligível a todos) é uma importante ferramenta contra determinada categoria de pessoas muitas vezes bem intencionadas (ou não) que insiste em dizer ao contrário. Muitos bradam “fascista!” em debates quando divergem de seus oponentes, principalmente quando divergem de liberais. Desculpem, mas não há como um liberal ser chamado de fascista porque são diametralmente opostos, a visão de ambos sobre o papel do Estado na transformação da sociedade é completamente antagônica, é preciso conhecer os adjetivos antes de bradá-los.

Certamente, muitos não sabem o que se significa essa expressão, que ganhou no Brasil um sinônimo de totalitário, antidemocrático ou algo do tipo. Eu diria que como o tema é complexo e polêmico, fica na verdade como se fosse uma batata quente, pulando de mão em mão porque foi um fracasso. Reiteradas vezes notório, de modo que ninguém quer assumir suas consequências, de maneira que se não o fosse, todos o trariam para o mais perto de si. A ideia que se busca difundir é a proximidade existente entre o marxismo e o fascismo. Não se pode negar que ambos conceitos permeiam o campo do coletivismo, isso é, para ambas, o indivíduo em si é algo secundário, que, havendo necessidade e/ou conflitos, deve sucumbir aos interesses da coletividade (isso me assusta, sério). Todas as vezes que casuisticamente houve regimes (se não declarados, simpatizantes) dos ditames primordialmente marxistas, um líder, um salvador da nação foi concomitantemente estabelecido para salvar toda uma coletividade do mal que se avizinhava, geralmente representado por ricos e balofos burgueses que brindavam alegres taças de champanhe enquanto ficava à penúria. El Dulce na Itália, Führer na Alemanha, Vozhd na União Soviética e por aí seguem demais exemplos.

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Nesse artigo, vamos nos ater ao do Fascismo, criado por Benito Mussolini. Na sua biografia pode-se encontrar elementos que o afastam de pronto de qualquer posição de direita, na acepção política do termo, afinal ele trabalhou nos jornais de posição socialista L’avvenire Del lavoratore – O futuro do trabalhador, Lotta di classe – Luta de classe e foi editor-chefe do jornal do partido socialista italiano, Avanti!. Bem, de pronto podemos notar que um reacionário ele não era. Poderiam dizer que os fascistas detestam os socialistas. Sim, porque o fascismo se mostrou mais táctil e mais breve para a transformação social na Itália. De qualquer modo, isso não exime as semelhanças entre as doutrinas, afinal, se dois irmãos gêmeos têm personalidades distintas, não se pode dizer que são filhos de pais diferentes.

Vamos à gênese. O coletivismo comum a ambos já se nota no termo fascismo, que vem de “fasces”, do latim. Significa e é simbolizado por um feixe de gravetos unidos e amarrados ao redor de um machado, traduzindo que o indivíduo solitário é débil, fraco e fácil de ser destruído, mas de igual forma não se pode dizer de um conjunto de vários gravetos, que permanece forte e um inimigo dificultoso a ser quebrado. O mal da esquerda é se ater somente a Marx. Francamente, ele já foi N vezes reformado por seus seguidores, principalmente por aqueles que vieram depois de suas previsões iniciais demonstrarem-se um total fracasso. Nesse sentido, inicialmente, Marx acreditava que a consciência de classe unia todos os proletários do mundo, e que uma revolução contra os detentores de capital era natural e esperada. Na verdade, isso não procede. Quando foi que se notou isso? Um marxista austríaco de nome Otto Bauer chegou a conclusão que o espírito de nacionalidade se sobrepunha sobre a consciência de classe coletiva dos trabalhadores, e isso se pode esclarecer no ano de 1911, na guerra ítalo-turca, na qual o reino da Itália disputara o domínio da Líbia com o Império Otomano – para informar, foi o primeiro conflito no qual aviões foram usados.

Deles eram arremessadas granadas de mão. Pode-se observar que os trabalhadores italianos nesta guerra tinham mais afinidade com a burguesia daquele país do que com os proletários otomanos, e isso surpreendeu Mussolini, que se viu obrigado a reconhecer o erro de Marx. De igual forma, outro revisionista, o marxista francês Georges Sorel apontou que a revolução não seria natural, ela teria de ser provocada, e o pontapé inicial para a revolução seria uma guerra. E ela veio. Em 1914 a Primeira Guerra Mundial eclodiu e com ela o movimento socialista partiu ao meio. O motivo? De um lado, estavam aqueles que defendiam que os proletariados não deveriam guerrear mutuamente (provavelmente porque isso enfraqueceria fortemente a consciência coletiva de classe) e de outro lado, aqueles que queriam a guerra (para fortalecer o espírito de nacionalismo, certamente). A Itália, inicial e externamente, opôs-se ao conflito. Mas logo uma divergência interna surgiu, porque havia revolucionários que insistiam em entrar na guerra para que com isso o nacionalismo (e também a tão aguardada revolução) acontecesse. Mussolini embarcou nessa e ofereceu seus esforços ao movimento. Ao regresso, as divergências entre os socialistas que foram contra a guerra se mantiveram, motivo pelo qual ele funda o movimento fascista (com uma pauta pró-proletariado: Salário mínimo, 8 horas diárias de jornada semanal, participação dos funcionários nos lucros das empresas, aposentadoria…). Isso não soa nem um pouco marxista?

Diferentemente da URSS que passou diretamente de uma sociedade praticamente feudal para contemplar o comunismo, Mussolini foi seguidor fiel de que o capitalismo seria uma ferramenta momentânea importante para a consolidação da revolução proletária (Nesse sentido, o marxista alemão Eduard Bernstein reforma Marx, afirmando que o capitalismo não iria se findar, de modo que os proletários se beneficiariam bastante com ele, de modo a elevar seu padrão de vida com o que ele poderia proporcionar. Esse pensamento existe até hoje, e acabou por desembocar na tão falada Social democracia. Na Itália, a luta de classes (potencial enfraquecedora do momento) deu lugar a um sentimento de uniformidade da nação, no qual haveria uma cooperação entre as classes, juntas por um ideal comum: A consolidação da revolução proletária. Curiosamente, essa cooptação de todos em prol do bem comum tem outro nome, capitalismo de Estado, um corporativismo propriamente dito, que teria um Estado eminentemente grande para ditar todas e quaisquer normas. Esse pensamento se aproxima do que Keynes propunha: Um Estado forte e atuante para evitar as contramarchas de um livre mercado animalesco e imprevisível. Vejam o que ele diz: “A teoria da produção agregada, que é o que este livro tenciona oferecer, pode ser adaptada às condições de um estado totalitário com muito mais facilidade do que a teoria da produção e da distribuição sob um regime de livre concorrência e laissez-faire. (John Maynard Keynes, “Prefácio” da edição alemã de 1936 da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, traduzido e reproduzido in James J. Martin, Revisionist Viewpoints (Colorado Springs: Ralph Myles, 1971), pp. 203?05.).

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Vejam vocês como há de modo cabal o distanciamento do pensamento liberal, que norteia o pensamento da direita. O capitalismo de Estado não é um capitalismo autêntico. Ele fomenta a obtenção de privilégios por parte do empresariado que busca se aproximar de um Estado intervencionista, discricionário e que concede regalias aos seus “amigos”. As regulamentações existem para uns, não para outros. Os políticos dão prerrogativas inalcançáveis no livre mercado, que fica cada vez mais desprestigiado, enfraquecido, de modo que todos querem ser “amigos da corte”. Essa aliança planifica a economia com a criação de demandas para satisfação de determinados segmentos empresarias, que em troca concede “doações”, ou no popular, propina para que o Estado continue sendo esse fiel e lucrativo amigo. Claro que esse pensamento levou à cartelização dos trabalhadores sindicalizados e, concomitantemente, a cartelização dos grandes empresários. Notem como, com isso, o Estado enorme passou a controlar os setores mais importantes da economia: Os produtores e os consumidores, de modo que ele decidia o quê, quem, quanto e de que forma iria produzir para quem ele quisesse vender. Isso, de liberalismo, de livre mercado, de concorrência, não tem absolutamente NADA. Muito provavelmente o que atrai o fascismo à direita é a cortina de fumaça que ele cria para parecer conservador, afinal, diferente do marxismo, ele não estatizou a propriedade em larga escala, não forçava uma igualdade de renda para todos, não proibida a religião, nem exigia a dissolução da família ou do casamento. Mas isso não aproxima o liberalismo, porque para este é preciso um Estado mínimo e mais, direitos individuais garantidos, o coletivismo em segundo plano, não o contrário.

Em 10 de junho de 1940 – disponível inclusive no YouTube – bradou el Dulce em seus acalorados discursos “Nós vamos para a batalha contra as plutocráticas e reacionárias democracias do ocidente”. “A proletária e fascista Itália se levanta uma terceira vez, forte, orgulhosa e unida como nunca antes.” Se não bastasse essa demonstração cabal do distanciamento da direita e do liberalismo clássico, é conhecida a frase do Dulce “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”. Fascismo e direita não combinam, a origem do movimento fascista é uma base marxista, coletivista, ainda que vá posteriormente se convolar em um corporativismo, não se pode fugir às origens. Por fim, encerro com uma máxima reflexiva: O fascismo vem recheado de boas intenções, mas o seu preço é alto. Os verdadeiros fascistas não sabem que o são.

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Ednardo Benevides

Ednardo Benevides é acadêmico de Direito do UNIFESO - Centro Universitário Serra dos Órgãos de Teresópolis. Preocupado em informar, procura trazer as atualidades em linguagem clara e tem o objetivo de propor a reflexão aos seus leitores.

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