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Parcialidade no jornalismo: um problema muito maior do que as “notícias falsas”

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A guerra da mídia tradicional contra as mídias alternativas continua a todo vapor. Desta vez o ataque veio de Craig Silverman, editor do BuzzFeed, que afirmou ter pesquisado durante todo o ciclo eleitoral americano sobre a influência das “noticias falsas”, chegando a conclusão de que elas tiveram melhor rendimento do que a mídia tradicional no Facebook. De acordo com a pesquisa, as 20 noticias falsas de maior alcance geraram 8 milhões e 711 mil reações, compartilhamentos e comentários no Facebook, enquanto no mesmo período as 20 noticias de melhor performance de 19 sites da grande mídia renderam apenas 7 milhões 367 mil, significantemente menos do que seus rivais. Dessas noticias, apenas três delas não eram favoráveis a Donald Trump ou anti-Hillary Clinton[1].

Não é difícil notar que o critério utilizado pela pesquisa em questão não é lá rigoroso e não resulta de forma alguma na conclusão da manchete sensacionalista do autor. Isso se dá, de acordo com Timothy P. Carney do Washington Examiner, devido ao fato de que a pesquisa em questão: não leva em conta o número de visitantes, número de páginas e ficheiros visitados dos sites em questão, apenas selecionando as noticias de maior participação no Facebook em cada gênero; o estudo apenas escolhe uma quantia pequena de sites da mídia tradicional; last but not least, as tais notícias da mídia tradicional não necessariamente são “notícias verdadeiras”, o que torna a comparação bem estúpida[2].

Quanto à escolha dos sites da mídia tradicional, pode-se notar que foram preteridos grandes meios de comunicação como o Yahoo News, Daily Mail, Reuters, BBC, Associated Press, Bloomberg, Boston Globe, Miami Herald, Dallas Morning News, Chicago Tribune, dentre outros grandes jornais de grandes cidades que não fossem New York, Los Angeles e Washington DC, enquanto inclui sites como o próprio Buzzfeed e Vox que são massivamente opinativos e ideológicos[3].

Além disso, pode-se notar algo bem interessante acerca das notícias da mídia tradicional de maior rendimento: a maioria delas é favorável a Hillary Clinton ou contra Donald Trump[4]. Basta olhar para as cinco notícias de maior rendimento que são, respectivamente, um artigo de opinião sobre porquê Hillary é menos corrupta que Trump, outro que afirma que Hillary é uma política honesta oprimida pelo excessivo escrúpulo de seus adversários[5], nudes de Melania Trump, a Ford respondendo para Trump que não sairá dos EUA e um ex-agente da CIA dizendo que iria votar em Hillary. Notoriamente, como percebido pelo próprio Silverman, a maioria dos artigos que tiveram maior rendimento na mídia tradicional foram artigos de opinião.

O leitor atento já deve ter notado uma coisa importante: a maioria desses artigos são artigos de opinião, e, desses artigos de opinião, apenas um era abertamente desfavorável a Hillary Clinton[6], enquanto todos os outros são favoráveis a ela ou contra Donald Trump, sendo que nenhum foi favorável a Donald Trump. Isso diz muita coisa sobre a grande mídia Americana, particularmente sobre a sua falta de neutralidade.

Evidente que seria incoerente afirmar, a partir de uma pesquisa que afirmamos ser insuficiente, que a mídia americana é tendenciosa, por isso mesmo iremos recorrer a estudos diferentes. De acordo com uma pesquisa da Universidade da California em Los Angeles (UCLA), que estudou noticias de 20 grandes jornais durante 10 anos, foi concluído que a maioria deles tendia para a esquerda, excetuando-se apenas o programa de Brit Hume na Fox News e o Washington Times[7]. Na mesma direção está um estudo da Indiana University que, após entrevistar mil jornalistas de centenas de noticiários diferentes, chegou à conclusão de que ao menos 28% deles se declaram democratas, enquanto apenas 7% deles afirmam serem republicanos[8]. De maneira gera, como aponta o Media Research Center, os mais diversos estudos apontam para uma tendência mais a esquerda dos jornalistas americanos[9]. Se formos buscar um exemplo mais especifico, o New York Times, podemos observar que no ano de 2005 a 2006 os colunistas do New York Times produziram 149 colunas diferentes ridicularizando a administração do então presidente George Bush, o que equivale 47% da produção total deles[10].

Essa tendência parece refletir na opinião do grande público sobre a mídia americana. De acordo com uma pesquisa da Gallup, ao menos 46% dos americanos acreditam que a mídia é excessivamente esquerdista, superando os que acreditam que a mídia é equilibrada (37%) e os que acreditam que a mídia é excessivamente conservadora (13%)[11]. É notório que isso vem minando a confiança que eleitores republicanos depositam na mídia tradicional, novamente de acordo com a Gallup, os eleitores republicanos bateram o recorde de desaprovação da mídia tradicional no ano de 2015, com apenas 14% deles afirmando que confiam no que é noticiado, o que empurrou a tendência geral do público Americano para baixo, oscilando de 40% em 2014 para 32% em 2015[12].

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Tendo passado por todas essas informações, é necessário nós refletirmos: o que são noticias falsas? Será que noticias falsas são somente alguns blogs divulgando besteira pela internet, ou também devemos incluir nessa história a mídia tal como conhecemos hoje, notoriamente tendenciosa para um dos lados?

Os grandes jornais, tendo agendas bem claras e definidas, acabam por induzir o receptor da notícia a uma conclusão falsa que não tomaria se todas as informações corretas estivessem a sua disposição, mesmo quando não estão noticiando informações falsas. De acordo com Bernard Goldberg a imparcialidade no jornalismo se manifesta no “que está sendo noticiado, como está sendo noticiado e o que é omitido[13]. Nessa direção, a falta de imparcialidade em todo o percurso da notícia pode ser tão ou mais danosa do que qualquer notícia falsa, afinal de contas, ela pode induzir o espectador a um entendimento equivocado da mesma forma que uma notícia falsa. Com isso não estamos querendo dizer que a mídia tradicional não divulga notícias falsas, do contrário, estamos apontando que além de suas notícias falsas, os grandes jornais também estão consistentemente induzindo seu público ao erro através de sua narrativa tendenciosa.

[1] https://www.buzzfeed.com/craigsilverman/viral-fake-election-news-outperformed-real-news-on-facebook?utm_term=.oa83WP9ZD#.jv37x4MPw

[2] http://www.washingtonexaminer.com/study-showing-fake-news-beating-real-news-looks-like-garbage/article/2607626#.WC2wIqLTffo.twitter

[3]https://docs.google.com/spreadsheets/d/1ysnzawW6pDGBEqbXqeYuzWa7Rx2mQUip6CXUUUk4jIk/edit#gid=399992108

[4] https://docs.google.com/spreadsheets/d/1ysnzawW6pDGBEqbXqeYuzWa7Rx2mQUip6CXUUUk4jIk/edit#gid=1756764129

[5] http://www.huffingtonpost.com/larry-womack/stop-pretending-you-dont-_b_12191766.html

[6] http://www.wsj.com/articles/the-press-buries-hillary-clintons-sins-1476401308

[7] http://newsroom.ucla.edu/releases/Media-Bias-Is-Real-Finds-UCLA-6664

[8] http://news.indiana.edu/releases/iu/2014/05/2013-american-journalist-key-findings.pdf

[9] http://www.mrc.org/special-reports/liberal-mediaevery-poll-shows-journalists-are-more-liberal-american-public-%E2%80%94-and

[10] O’REILLY, Bill. Culture Warrior. New York: Broadway Books, 2006. Página 22.

[11] http://www.gallup.com/poll/164459/trust-media-recovers-slightly-time-low.aspx

[12] http://www.gallup.com/poll/195542/americans-trust-mass-media-sinks-new-low.aspx

[13] GOLDBERG, Bernard. Arrogance: Rescuing America from the Media Elite. New York: Warner Books, 2003. Página 15. Tradução livre.

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