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O povo icônico e a evolução do dominio

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Originalmente publicado aqui
Durante grande parte da história, o termo povo foi utilizado de maneira seletiva nas mais diversas sociedades, sendo essa seleção muitas vezes expressa abertamente (nas ditaduras) ou mesmo revestidas pelo formalismo jurídico (no liberalismo). Nesse sentido, é necessário notar que o conceito de povo muitas vezes se confunde com a necessidade dos poderosos de obter legitimação política ao restringir o povo para apenas aquela parcela que está mais propensa à lealdade política .

Essa concepção deturpada de povo icônico é uma fabricação histórica que vem com o descredenciamento do mito jusracionalista do “estado de Natureza onde todos são livres”, que se mostrava insustentável, devido ao fato de que o homem nesse estado não é plenamente livre, mas sim prisioneiro da natureza, tal como ensina Hegel, pois a liberdade só existe na reflexão do homem para si mesmo, na sua distinção da natureza e na ação refletida sobre si . Isso significa que quando o homem se relacionava com a natureza em seu estado mais primitivo, ele ficava submisso diante dela, pois essa mostrava uma enorme força que ele não podia controlar, e assim tornava-se fonte de normas para o comportamento humano, o que contrasta com o homem que se insere na civilização, visto que esse vê a natureza como uma arena onde ele pode impor suas vontades através da tecnologia, ou seja, com liberdade de agir diante dela .

Nesse contexto surge à escola do historicismo que, baseada em uma visão mais concreta do Homem, esclareceu como a variedade de possibilidades em que podemos observa-lo, devido a toda a multiplicidade de fatores que podem incidir sobre sua constituição, não se encaixava no arquétipo de um “estado de natureza”. Como consequência disso, pontuaram os representantes do Historicismo jurídico que a aplicação de juízos generalizados em relação ao homem e aos fenômenos culturais e sociais a que o homem deu origem não são suficientes para entender as profundas transformações e a variedade de formas que a vida moral e espiritual do indivíduo e das comunidades assume .

Malgrado o historicismo ter dado ao conceito de indivíduo maior concretude, é notório que também devido a ele o indivíduo perdeu sua relevância nas especulações filosóficas. Isso se deu porque a perda da noção de uma natureza humana e a aceitação dela como resultado de um processo fez com que o sujeito ativo da vida social deixasse de ser o homem e se tornasse a sociedade como um todo, amputando toda individualidade para fora, o que é um traço marcante nos pensadores políticos do século XVIII que abusavam de se apresentar como representantes da “vontade geral” .

A noção da vontade geral historicista serviu como legitimadora de uma expansão do poder do Estado sobre os indivíduos, visto que, enquanto no modelo jusracionalista toda autoridade era limitada para que atuasse de acordo com a necessidade de consolidar a proteção dos direitos naturais, no novo modelo da “vontade geral” a autoridade era aquela que interessava a sociedade, o que elimina qualquer desconfiança a seu respeito, afinal era o próprio povo-destinatário que tomava as decisões para si . Mas como bem advertiu Nietzsche a mentira mais fria é dizer que “Eu, o Estado, sou o povo” , pois é impossível que assim o seja, afinal não tem como os mesmos homens serem governantes e governados ao mesmo tempo e sob um mesmo aspecto , o que evidência que por trás de toda “vontade geral” se esconde uma vontade que é alheia a do conjunto de pessoas e toma as rédeas de suas decisões, oculta sobre a falsa imagem de um povo icônico irreal. Nesse sentido, não é de se estranhar que, como descrito por Frederic Muller, o conceito de povo seja adulterado, excluindo os menos propensos a lealdade política, para que essa noção sirva meramente como uma maneira de alguma elite legitimar seu domínio crescente sobre a vida de todos.

No entanto o problema não acaba por ai. Se por um lado Hegel diagnosticou adequadamente que quando o espírito do povo se afasta da natureza ele ganha uma liberdade que ele antes não possuía, parece que o próprio desenvolvimento do domínio do homem sobre a natureza levou ele a domar não somente a ela, mas também aos seus semelhantes. Com isso é necessário apontar que já existem hoje técnicas avançadas para condicionar o comportamento humano de forma à severamente influenciar a opinião pública para que essa aceite as opiniões desejadas pelo manipulador, que bombardeia a população com manipulação psicológica através das escolas , da comunicação áudio visual da televisão , internet e muitas outras formas que só poderiam ser expostas exaustivamente em uma pesquisa a parte sobre o tema.

Evidente que, como aponta o ex-agente da KGB Yuri Bezmenov, a arte de condicionar as massas para fazer coisas em sua própria desvantagem é tão antiga quanto a humanidade , contudo é inegável que na era moderna houve uma intensificação desse condicionamento devido ao fato de que o aumento das tarefas do Estado passaram a exigir uma quantidade de conhecimentos especializados que as massas não tem condição de adquirir, a dimensão dos problemas se ampliou para o cenário internacional devido a globalização e a distância entre os centros formadores de opinião pública e a população foi encurtada de forma a facilitar a imposição de pensamentos prontos para as massas dóceis . Isso é de uma importância tamanha na era moderna que o filosofo Olavo de Carvalho chega a dizer que as técnicas de manipulação em massa “estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso tempo” .

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