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Temer conhece os alemães? Em defesa do voto de Bolsonaro contra Temer

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Ao assistir a votação no congresso que versava sobre o futuro das investigações contra Michel Temer, vi o voto de Bolsonaro contra o Presidente sem ficar surpreso, já imaginava que o deputado iria votar de forma coerente com seu histórico posicionamento contra a corrupção independentemente da conveniência política. Mas parece que muitos articulistas do meio anti-comunista, principalmente entre os chamados liberais conservadores (que prefiro chamar de conservadores de tendência anglo-saxônica, definição que não discutirei aqui[1]) não concordaram com isso. Entre eles, o que mais se entusiasmou com o assunto foi o economista Rodrigo Constantino, escrevendo uma série de artigos que foram publicados no Instituto Liberal e na Gazeta do Povo, com uma abundância tal que faz dele a ideal antítese para meu comentário.

O primeiro artigo que li foi “Bolsonaro vota de acordo com campanha petista e globalista pela saída de Temer, e é detonador por editor de direita”[2], onde Constantino recorre as autoridades do editor Andreazza, chamado por ele de legítimo conservador, e do articulista Luciano Ayan para atacar o posicionamento do deputado. Nesse texto, ele aponta que é incoerente o posicionamento do deputado pelo fato de ele estar de acordo com os interesses dos partidos comunistas, urgindo esse a ser um tanto mais pragmático para livrar o Brasil da “lama vermelha”. Creio que essa é uma exigência absurda, visto que não havia qualquer motivo para Bolsonaro se sujar em nome do pragmatismo quando a votação já estava decidida em favor de Temer. Não estava mais em jogo à matéria da votação, mas apenas a imagem do deputado, que tenta ao máximo realçar sua honestidade como um diferencial e que sofreria um duro golpe eleitoral se ele votasse em favor de um político corrupto.

Mais persuasivo foi outro artigo que ele publicou, cujo título é “votar a favor de Temer não é o mesmo que votar pela corrupção, e sim contra a extrema-esquerda golpista”[3]. Primeiramente, o articulista aponta que o caso não morre judicialmente com o resultado da votação, afirmando que Temer pode ser processado quando deixar de ser presidente, o que me parece um ato de fé um tanto inocente, mas que só o tempo dirá se foi justificado ou não. Também lembrou o Constantino que essa era uma iniciativa da esquerda para conter ações importantes do governo Temer, como a asfixia aos sindicatos e aos artistas engajados, a mudança de comando das estatais e as reformas.

Quanto a esse ultimo argumento, creio que ele tem algum nível de razão ao afirmar essas coisas, mas acredito também que se trata nada mais e nada menos do que a versão política do famoso “Dante conhece os alemães”, tão repetido antes do trágico 7×1 na ultima copa, uma ilusão que no vendem como garantia de sucesso. Minha preocupação não é irracional, mas é fundada na constatação de alguns fatos sobre Michel Temer que a direita faz um desserviço ao esquecer. Primeiramente, foi ninguém menos do que o ex-presidente Lula quem disse que seria melhor para o futuro do PT se Michel Temer permanecesse no cargo[4], posição que quebra o tal argumento do Constantino de que é do interesse da esquerda que Michel Temer saia o mais cedo possível do poder, sendo preferível usar a impopularidade dele para obter dividendos políticos. Convenhamos, cada dia que Temer passa a mais no poder favorece a narrativa esquerdista de que houve um golpe no Brasil e que a perseguição era direcionada apenas ao PT.  Vale mencionar também esse artigo da UOL que reporta ser unanimidade entre os petistas que a permanência de Temer na presidência é algo eleitoralmente positivo para o partido[5].

Além disso, não vamos nos esquecer do famoso grampo vazado da conversa entre Machado e Renan Calheiros, onde o primeiro propõem que Michel assuma para garantir Dilma e Lula com um grande acordo [6], acordo esse que Sarney, em outro grampo, afirmou ser do conhecimento de Temer[7]. Se isso tudo não bastasse para derrubar a credibilidade de Michel Temer em uma luta contra a “lama vermelha”, não devemos também esquecer que o próprio foi, durante toda a sua vida, um poderoso aliado das esquerdas, sendo peça chave de sustentação do governo FHC, assim como do governo Lula[8], não havendo qualquer motivo para crer que ele queira se rebelar contra esquerdistas de maneira geral, mas apenas contra os que representam uma ameaça a ele.

Dirceu pede impeachment de FHC.png

Outros dois textos foram publicados, entre eles “todo mundo que eu não gosto é comprado pelo temer”[9] e “honestidade é condição necessária, não suficiente”[10], que não comentam sobre a decisão de Bolsonaro, mas sobre os ataques promovidos pelos seguidores do deputado contra ele. O tema central em ambos os textos é dizer que a realidade brasileira não é tão simples a ponto da votação representar um mero “sim” ou “não” contra a corrupção, tal como os defensores de Bolsonaro afirmaram contra ele. Creio que o fato dele se sentir incomodado a ponto de fazer dois textos sobre o assunto já demonstra que eu estou certo no que diz respeito a coerência do deputado  e da sua imagem como político honesto, visto que os seus apoiadores se posicionaram imediatamente do lado dele, coisa que dificilmente aconteceria se ele tivesse votado a favor. Convenhamos, independente do que se acha acerca do resultado da votação, é mais fácil entender o porque uma pessoa honesta seria contra uma pessoa desonesta do que entender o motivo pelo qual uma pessoa honesta votou em favor de uma pessoa desonesta devido a uma estratégia política tão complexa quanto controversa.

Por fim, devo deixar claro que acredito ter sido adequado o posicionamento de Bolsonaro em seu voto, não apenas porque é importante nós dificultarmos ao máximo a vida de políticos corruptos, mas também porque o voto no “sim” seria extremamente benéfico para as esquerdas, devido ao fato de que, como previamente argumentei, a permanência de Temer fortalece os esquerdistas, assim como seria um ótimo instrumento para atacar Bolsonaro que, queira Constantino ou não, irá para as eleições como uma alternativa contra a esquerda. Sacrificar essas benesses óbvias em nome de algumas reforminhas e um suposto combate aos esquerdistas – que Temer sustentou politicamente durante toda sua carreira – seria absurdo. Ainda bem que Bolsonaro foi mais prudente que Constantino, não apostando que Temer conhecia os alemães.

[1] Fica a recomendação dos artigos do Arthur Rizzi acerca do tema, como este http://minutoprodutivo.com/brasil/combatendo-o-conservadorismo-chavao

[2]http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/bolsonaro-vota-de-acordo-com-campanha-petista-e-global-pela-saida-de-temer-e-e-detonado-por-editor-de-direita/

[3] http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/votar-favor-de-temer-nao-e-o-mesmo-que-votar-pela-corrupcao-e-sim-contra-extrema-esquerda-golpista/

[4] http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/as-vesperas-da-votacao-lula-reiterou-que-torce-pelo-fica-temer/#

[5] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/08/04/sangramento-de-temer-favorece-candidatura-de-lula-dizem-analistas.htm

[6] http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/leia-os-dialogos-de-sergio-machado-com-renan-calheiros/

[7] “Machado – Temos que fazer um governo, presidente, de união nacional. Sarney – sim, tudo isso está na cabeça dele, tudo isso ele já sabe…” http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1775011-leia-a-transcricao-dos-audios-de-sarney-e-do-ex-presidente-da-transpetro.shtml

[8] https://eleicoes.uol.com.br/2010/pre-candidatos/conheca-a-trajetoria-do-deputado-michel-temer-pmdb-sp-vice-da-pre-candidata-dilma-rousseff-pt.jhtm

[9] http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/votar-favor-de-temer-nao-e-o-mesmo-que-votar-pela-corrupcao-e-sim-contra-extrema-esquerda-golpista/

[10] https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/honestidade-e-condicao-necessaria-nao-suficiente/

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